O paradoxo da América Latina: como o caos global virou tese de investimento
Mercosul–UE em vigor, USMCA em revisão, capital chegando. O que empresas B2B tech precisam entender em 2026 e por que a janela de entrada não é mais sobre “se”, mas sobre “com que inteligência”.
Mercado Latam | Maio 2026 | 9 minutos de leitura
Depois de 25 anos de negociações intermitentes, o Acordo Comercial Provisório entre Mercosul e União Europeia¹ entrou em vigor no último mês de abril. O bloco passa a conectar mais de 700 milhões de pessoas e um PIB combinado de cerca de US$ 22 trilhões, com eliminação progressiva de tarifas sobre 95% dos bens exportados pelo Mercosul. No primeiro trimestre de 2026, a região registrou cerca de US$ 27 bilhões em deals de M&A, private equity e venture capital², operações maiores em volume, menos pulverizadas e com perfil mais institucional do que especulativo.
As transações em destaque³ incluem: a aquisição da Linx pela TOTVS no valor de R$ 3,05 bilhões. No México, a aquisição de 100% da Prolec GE por parte da GE Vernova, avaliada em US$ 5.275 milhões. Na Argentina, a compra pela petrolera Vista Energy dos ativos da norueguesa Equinor na formação Vaca Muerta (hidrocarbonetos não convencionais), por US$ 712 milhões. No Chile, a venda do 100% da Movistar Chile (telecomunicações) pela Telefónica (Espanha) para uma joint venture entre Milicom e NJJ Holding, no valor de US$ 806 milhões.
Esse movimento não acontece no vazio. Morgan Stanley publicou um bull case prevendo que os mercados de capitais latino-americanos quase tripliquem até 2035 (de US$ 2,4 tri para US$ 6,3 tri), com alta de 90% no MSCI EM Latin America Index até 2030. JP Morgan destacou fluxos estrangeiros mais fortes para o Brasil em 2026, com ingressos recordes (R$ 7,3 bi no início do ano).
Quanto pior o cenário global, mais atraente a América Latina se torna.
Oliver Stuenkel, professor da FGV
Como observou Oliver Stuenkel, professor da FGV, “quanto pior o cenário global, mais atraente a América Latina se torna”⁴. Em um momento em que a geopolítica deixou de ser ruído de fundo para se tornar variável central das decisões econômicas, a região oferece algo raro: estabilidade relativa, recursos estratégicos e uma distância confortável dos principais focos de tensão. Mas reduzir o momento da América Latina à ideia de “porto seguro relativo” subestima o que está em curso. Há três forças globais convergindo simultaneamente, e a região está no centro das três.
OS NÚMEROS QUE REDESENHAM O MAPA
A nova matemática regional, em três sinais
+700M
Pessoas conectadas pelo bloco econômico ampliado.
US$ 22T
PIB combinado Mercosul + União Europeia após o acordo.
US$ 27B
Volume de M&A, PE e VC na região no Q1 2026.
Três forças globais que convergem sobre a América Latina
A leitura a seguir parte da análise da Aurelion Research sobre o reposicionamento da região. Três forças estruturais⁵ explicam esse movimento. Cada uma delas tem consequências práticas para quem está avaliando a entrada.
JP Morgan reforça essa leitura: a confluência de transformações estruturais internas e externas está criando uma janela distinta dos ciclos anteriores. A transição global para economias digitais e verdes elevou o prêmio sobre minerais críticos, energia e segurança alimentar, exatamente os ativos e setores em que a América Latina está excepcionalmente bem posicionada.
Não é entusiasmo.
É tese de alocação de capital.
O Brasil em particular
Dentro da equação regional, o Brasil ocupa posição de destaque. É a maior economia de tecnologia da América Latina, com US$ 67,8 bilhões em investimentos de TI⁶ em 2025 (alta de 18,5% vs. 2024, acima da média global de 14,1%). Concentra hoje quase 40% do mercado de TI latino-americano, com 22 unicórnios e nove das doze startups latinas com maior probabilidade de atingir esse status em 2026.
Em fevereiro de 2026, a Microsoft anunciou um pacote de US$ 50 bilhões para o Sul Global na próxima década, com o Brasil entre os países prioritários. O governo federal mobiliza R$ 23 bilhões no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial entre 2024 e 2028. O marco regulatório de IA, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, está em fase final de tramitação na Câmara dos Deputados. O país não é mais apenas consumidor de tecnologia, está construindo as condições para produzi-la.
Há também um diferencial menos óbvio: a posição diplomática brasileira. Apesar de ser a maior economia regional, o Brasil não é percebido como ameaça militar pelos vizinhos, graças a uma tradição histórica de resolução pacífica de disputas e cooperações bilaterais. Países como Paraguai, Bolívia e Uruguai mantêm gastos modestos em defesa (abaixo de 2% do PIB)⁷, focados em desafios internos em vez de ameaças externas. É uma raridade no sistema internacional e, para uma empresa que opera a partir do Brasil e serve mercados vizinhos, funciona como infraestrutura invisível de alto valor.
O Cone Sul complementa o Brasil com forças complementares. A Argentina³, pós-estabilização macroeconômica, atraiu US$ 1,2 bi em private equity no Q1 2026 (alta de 45% vs. 2025), focando em agro e energia. O Uruguai⁸ se consolida como hub tech regional, com 15% do VC latino-americano e incentivos fiscais de até 0% em IR para tech por 10 anos. Já o Paraguai⁹ destaca-se com energia 98% renovável, ideal para data centers: Itaipu e Yguazú garantem 14 GW abundantes. Entrar pelo Brasil é a porta estratégica para esses ecossistemas adjacentes, sem barreiras geopolíticas.
O que pode complicar (ou redirecionar) o caminho
Reconhecer a oportunidade não significa ignorar fricções. Em 2026, o principal risco é uma bifurcação estrutural que pode separar a região em dois corredores muito diferentes.
1. Corredor Mercosul–UE
Com o acordo em vigor provisório, melhora a previsibilidade, amplia-se o acesso ao mercado europeu e o Cone Sul se fortalece como rota mais integrada ao comércio global. Para empresas B2B tech, isso torna Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai mais atraentes como base regional.
2. Corredor México–EUA
A revisão formal do USMCA em 1º de julho de 2026 pode aumentar a incerteza. O México enfrenta pressão interna sobre previsibilidade institucional e, ao mesmo tempo, pressão externa dos EUA para limitar a presença indireta de capital, componentes e tecnologia chinesa via território mexicano. Mesmo com a manutenção do acordo, a expectativa de acordo com analistas é de regras de origem mais rígidas, fiscalização mais intensa e menos tolerância a zonas cinzentas. O nearshoring segue relevante, mas a operação a partir do México tende a ficar mais exigente.
3. Stack tecnológico sob pressão
Cresce a exigência para reduzir exposição a tecnologia chinesa em telecom, cloud, hardware e infraestrutura crítica. Em B2B, isso afeta contratos, auditorias e captação.
4. Eleição no Brasil
A disputa de outubro é provavelmente o fator de maior incerteza no curto prazo. Pode mover custo de capital, política fiscal, regulação setorial e o ritmo de decisão de M&A no segundo semestre. Para empresas em estágio de avaliação ou negociação, há um risco real de janela: contratos, anúncios e aquisições que dependem do segundo semestre tendem a ser empurrados para depois da definição eleitoral, comprimindo calendários de execução.
5. Reforma tributária brasileira
A transição até 2033 adiciona complexidade ao planejamento. Quem opera com contratos plurianuais precisa modelar isso antes de fechar negócio.
Em resumo: Não é um argumento para esperar. É um argumento para entrar com mais preparo e um desenho de risco mais maduro.
O que separa quem acerta de quem erra
Na Acertiqa, vemos um padrão recorrente: empresas que chegam à América Latina tendem a errar nas mesmas duas dimensões.
A primeira é tratar a região como bloco uniforme. Brasil, México, Colômbia e Argentina possuem lógicas regulatórias, ritmos de decisão, gatilhos de confiança e atalhos distintos. O playbook que destrava São Paulo não destrava Cidade do México. Comprimi-lo numa única estratégia regional desperdiça capital em ciclos intermináveis de tentativa e erro.
A segunda é não calibrar os três ritmos que estão em jogo simultaneamente:
- Capital financeiro se move em semanas.
- Mudanças regulatórias levam meses para se materializar.
- Presença operacional real (gerentes locais experientes, redes de distribuição e relações confiáveis) exige de 12 a 24 meses para amadurecer.
A questão não é mais "se", mas "com que inteligência"
Quando o mundo fica mais instável, ativos estáveis ficam mais valiosos. Quando as cadeias globais se fragmentam, proximidade e confiança viram vantagem competitiva. Quando mercados tradicionais ficam saturados ou imprevisíveis, mercados com espaço real de crescimento ganham atenção e capital.
A América Latina não está ganhando relevância apesar do cenário global. Está ganhando porque o cenário global finalmente deixou claro o que a região sempre ofereceu.
A pergunta para empresas B2B tech não é mais se entrar na América Latina. É com que inteligência entrar — e em que ritmo.
Fontes:
1 Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. (2026). Entrada em vigor do acordo provisório de comércio Mercosul–União Europeia. gov.br/mdic
2. TTR DATA. (2026). Informe trimestral sobre el mercado transaccional latinoamericano – 1T26. .blog.ttrdata.com
3 TTR DATA. (2026). Informes trimestrais de los países latino americanos sobre el mercado transaccional latinoamericano – 1T26 . .blog.ttrdata.com
4 Forbes Brasil. (2026, abril). Para investidores, quanto pior o cenário lá fora, mais atraente a América Latina fica, afirma Oliver Stuenkel, professor da FGV. forbes.com.br
5 Aurelion Research (2026). Latin America Primer: Why the Region. aurelionresearch.substack.com
6 ABES. (2025). Brasil mantém liderança em TI na América Latina, cresce acima da expectativa em 2025 mas desacelera ritmo de crescimento neste ano e consolida nova fase do mercado. abes.org.br
7 DW Brasil (2026). América Latina gasta menos em armas do que o resto do mundo. dw.com
8 Uruguay XXI (2026). “O Uruguai se tornou um hub de negócios para a América Latina”. uruguayxxi.gub.uy
9 Canal Energia. Renováveis atingem 69% da matriz elétrica na América Latina e Caribe. canalenergia.com.br
10 Reuters (2026). USTR Greer says US-Mexico-Canada pact talks may run past July 1 deadline. canalenergia.com.br
Meet the Author

Daniela Santos
HEAD OF PRODUCT MARKETING & GROWTH
Internacionalista, atua em análise de mercado para expansão internacional, product marketing intelligence e identificação de oportunidades nos mercados globais e Latam, com foco na indústria fintech. Combina a leitura macro das relações internacionais (contexto regulatório, dinâmicas geopolíticas e culturais) com a precisão do product marketing para traduzir contexto em estratégia.
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